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O perigo silencioso das novelas turcas: por que o “amor” que elas vendem pode adoecer ainda mais as mulheres?

Uma análise psicológica sobre machismo estrutural, misoginia e a ilusão do amor redentor.

A sedução da tela e a distorção da realidade

Você já se pegou suspirando com os dramas intensos das novelas turcas? A fotografia é impecável, a trilha sonora ajuda, os atores são bonitos e a história entrega exatamente aquilo que a gente foi buscar: um amor intenso, cheio de obstáculos, sofrimento e, finalmente, redenção.

Mas é aí que eu quero fazer uma pausa, porque, por trás dessa estética toda, pode existir uma armadilha psicológica silenciosa. Quando consumimos essas narrativas repetidamente e sem nenhum olhar crítico, podemos começar a normalizar algumas dinâmicas bastante disfuncionais, machistas e misóginas.

Eu sei que é ficção (a gente sabe que é ficção), mas as histórias que consumimos também participam da forma como aprendemos a enxergar os relacionamentos. Quando uma narrativa apresenta repetidamente o controle como cuidado, o ciúme como prova de amor e o sofrimento como demonstração de compromisso, vale perguntar o que estamos aprendendo a considerar romântico.

O mito do “amor redentor”: mulheres salvadoras

A narrativa turca gosta muito daquela mulher pura, resiliente e paciente que enxerga o lado bom de um homem difícil e acredita que o amor dela será capaz de transformá-lo. Ela compreende o passado dele, suporta comportamentos que não deveria precisar suportar e continua acreditando que, em algum momento, ele vai mudar.

Bonito na novela, não é? Na vida real, isso pode ser uma armadilha.

Existe uma fantasia bastante comum de que somos capazes de mudar o outro através do nosso amor, da nossa paciência ou da nossa dedicação. Algumas mulheres acabam entrando justamente nesse lugar e passam a acreditar que, se fizerem tudo certo, conseguirem chegar naquele homem e forem compreensivas o suficiente, ele finalmente vai mudar.

Você começa a se responsabilizar pela transformação de um homem adulto (e essa responsabilidade pode aprisionar).

A verdade clínica: ninguém muda ninguém

Vamos desmistificar isso de uma vez? Você pode amar muito alguém e ainda assim não conseguir mudar essa pessoa.

A mudança precisa partir dela. É preciso reconhecer o próprio comportamento, assumir responsabilidade e estar disposto a fazer diferente. Quando falamos de violência, abuso ou comportamentos profundamente disfuncionais, amor, paciência e fé não substituem tratamento.

Quando existe uma questão psicológica ou psiquiátrica que precisa de acompanhamento, essa pessoa precisa buscar ajuda e, principalmente, estar disposta a participar desse processo. E tem uma parte ainda mais difícil de aceitar: às vezes, a pessoa simplesmente não quer mudar.

Por que ele não quer mudar? A questão do poder

E aqui entra uma questão que eu considero muito importante: poder.

Em uma estrutura patriarcal, determinados comportamentos masculinos são ensinados e normalizados desde muito cedo. O homem precisa ser aquele que decide, protege, manda e sabe o que é melhor. Então, quando uma mulher começa a colocar limites, tomar decisões próprias e questionar esse lugar, alguma coisa muda nessa relação de poder.

Abrir mão do controle significa abrir mão de um privilégio (e isso pode ser muito difícil para quem está acostumado a ocupar uma posição de domínio dentro da relação).

É muito mais confortável continuar chamando a mulher de “compreensiva”, enquanto ela tolera comportamentos que não deveria precisar tolerar. E a novela muitas vezes apresenta esse homem como “difícil de amar”, “forte”, “protetor” ou simplesmente como alguém que precisa encontrar a mulher certa.

Eu quero que você desconfie um pouquinho dessa história.

A máscara da masculinidade tóxica

Nas novelas turcas, agressividade, ciúme, perseguição e controle aparecem muitas vezes como provas de amor ou como instinto de proteção. Agora troca a televisão pela sua vida e olha para essa mesma situação de outro lugar.

Se um homem quer saber onde você está o tempo inteiro, decide com quem você pode sair, controla sua roupa, invade seu celular ou não aceita que outro homem converse com você, isso não deixa de ser controle porque ele diz que está fazendo por amor.

Na tela, a trilha sonora pode ser linda (e a gente sabe como uma boa trilha sonora consegue fazer qualquer cena parecer mais romântica). Na vida real, eu quero que você perceba o sinal de alerta.

Quando a gente se acostuma a assistir ao controle sendo apresentado como romance, pode ficar mais difícil reconhecer determinadas situações quando elas acontecem com a gente. É justamente por isso que desenvolver um olhar crítico sobre essas narrativas pode ser importante.

A matriarca castradora: o controle em nome de Deus e da família

Tem outra personagem que aparece muito nessas histórias: a mãe matriarca. Ela é apresentada como a guardiã da moral, da família e das tradições, aquela pessoa que acredita saber exatamente o que é melhor para todo mundo.

Muitas vezes, ela interfere nas escolhas dos filhos adultos, decide quem é adequado para eles, desaprova relacionamentos e usa a família, a religião ou o próprio amor como justificativa para continuar controlando.

“Eu só quero o seu bem.”

Essa frase pode esconder muita coisa (e talvez você já tenha ouvido algo parecido na sua própria vida).

Amor não dá ao pai ou à mãe o direito de decidir a vida de um filho adulto. Filho precisa poder se diferenciar, escolher, errar e construir a própria identidade, mesmo quando a escolha dele não é aquela que você faria.

O impacto na construção da identidade feminina

E o que tudo isso pode ensinar para uma mulher que passa anos consumindo essas histórias?

Ela pode começar a receber repetidamente a mensagem de que amar é suportar, que ser uma boa mulher é perdoar, que colocar os próprios desejos em segundo plano é uma prova de amor e que uma mulher forte precisa aguentar.

Aos poucos, autonomia pode começar a parecer egoísmo. Limite pode parecer frieza. E sair de uma relação ruim pode parecer falta de amor.

Isso merece atenção.

Porque a nossa identidade também vai sendo construída a partir das mensagens que recebemos sobre o que significa ser mulher, esposa, mãe e parceira. Quando essas mensagens aparecem o tempo inteiro, é importante perceber quais delas fazem sentido para a vida que você quer construir e quais apenas repetem um modelo que você nunca chegou a questionar.

Fé e amor não curam estruturas de opressão

Eu também quero falar sobre uma confusão que aparece muito nessas histórias: a ideia de que amor e fé seriam suficientes para resolver qualquer coisa.

Não são.

Fé e amor podem ser partes muito importantes da vida de uma pessoa, mas não resolvem, sozinhos, machismo, misoginia ou comportamentos abusivos. E tratar uma relação de opressão como “falta de amor” ou “falta de paciência da esposa” coloca nas costas da mulher uma responsabilidade que não é dela.

Você não precisa amar melhor para conseguir ser respeitada. Também não precisa ter mais paciência para que alguém pare de controlar você. E você certamente não precisa salvar um homem adulto das consequências das escolhas dele.

Desenvolvendo o olhar crítico

Isso significa que você precisa parar de assistir às suas séries favoritas? Não. Eu mesma gosto de uma boa história (e não quero transformar cultura em uma lista de coisas proibidas).

A questão é aprender a assistir sabendo separar ficção de vida real. Quando uma cena de ciúme parecer romântica, pergunte a si mesma se gostaria que alguém fizesse aquilo com você. Quando o personagem controlar a mulher em nome da proteção, pense se você chamaria isso de cuidado caso uma amiga estivesse contando essa história.

E quando aquela mulher passar a novela inteira sofrendo para finalmente ser recompensada pelo amor, vale perguntar por que o sofrimento dela precisou ser o preço daquele relacionamento.

Essas perguntas já mudam a forma como você assiste, porque você deixa de consumir aquela narrativa apenas pela emoção e começa a observar também o que ela está apresentando como normal.

O que você consome também consome você de volta

Eu gosto de novelas, filmes, séries e livros. Não quero transformar cultura em uma lista de coisas proibidas. Mas acho importante desenvolver senso crítico, principalmente quando estamos falando de relações afetivas e de modelos de comportamento que podem ser repetidos inúmeras vezes.

Você pode gostar de um personagem e não querer aquele comportamento na sua vida. Pode torcer por um casal e reconhecer que aquela relação seria péssima na vida real. Pode se emocionar com uma história de amor sem acreditar que sofrimento é o preço necessário para viver um grande romance.

E, principalmente, pode começar a prestar atenção naquilo que você está normalizando (inclusive nas coisas que parecem pequenas e que, justamente por isso, passam despercebidas).

Porque o que você consome também consome você de volta. A sua identidade e a sua liberdade não precisam ser o preço de um relacionamento.

E agora eu quero ouvir você: já se pegou torcendo por um casal claramente tóxico em uma novela? Ou já viveu aquela dinâmica de tentar salvar alguém porque acreditava que, com amor suficiente, ele mudaria?

Me conta nos comentários. Essa conversa merece continuar.

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