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Quando um profissional manda o paciente parar a terapia: precisamos falar sobre isso

Hoje aconteceu algo no consultório que me fez escrever este texto. E, sinceramente, eu não planejava falar sobre isso publicamente. 

Esse é um tema que costuma circular apenas nos bastidores da prática clínica, entre colegas. Mas às vezes algumas situações se repetem tanto que chega um momento em que o silêncio deixa de ser confortável. Você entende o que quero dizer?

Uma paciente chegou à sessão trazendo uma orientação que havia recebido em atendimento psiquiátrico: estava na hora de interromper a terapia e continuar apenas com a medicação. Ela ficou confusa não porque desconfiasse do médico, mas porque sabia o quanto o processo terapêutico vinha sendo importante naquele momento da vida.

E essa não foi a primeira vez que ouvi algo assim. Na verdade, quem trabalha com clínica psicológica sabe que isso acontece com uma frequência maior do que as pessoas imaginam.

Foi nesse momento que eu pensei: talvez seja hora de conversar abertamente sobre isso.

Quando uma área começa a falar pela outra

Existe algo curioso que acontece em alguns casos. Profissionais que deveriam caminhar lado a lado no cuidado em saúde mental acabam atravessando fronteiras de atuação.

De repente, um médico começa a dizer quantas sessões de psicoterapia o paciente deveria fazer. Em alguns casos, chega a sugerir qual abordagem psicológica deveria ser utilizada ou em que momento o processo terapêutico deve ser encerrado.

E aqui surge uma pergunta importante: quem define o tempo de um processo terapêutico?

Na psicologia, essa decisão não nasce de um protocolo rígido nem de um número pré-estabelecido de encontros. Ela nasce da escuta clínica, da história do paciente, do que vai sendo revelado ao longo das sessões. Cada pessoa tem um ritmo, uma história, uma forma própria de elaborar o que vive.

Você já percebeu como o sofrimento humano raramente cabe em fórmulas prontas?

O que a medicação faz e o que ela não faz

A psiquiatria tem um papel fundamental na saúde mental. Isso precisa ser dito com toda clareza.

Existem quadros em que o suporte medicamentoso é essencial para estabilizar sintomas, regular processos neuroquímicos e permitir que a pessoa tenha condições mínimas de funcionamento.

Mas a medicação não reorganiza a história de vida de alguém.

Ela não revisita experiências emocionais antigas, mas não modifica padrões de relacionamento e nem ajuda o paciente a compreender por que reage sempre da mesma maneira em determinadas situações.

É ali que o paciente começa a compreender o que sente, de onde vem aquele sofrimento e quais caminhos podem ser construídos a partir dessa compreensão. Você percebe como uma coisa não substitui a outra?

O risco de reduzir o sofrimento humano a sintomas

Quando um paciente é orientado a interromper a psicoterapia sem que exista diálogo entre os profissionais envolvidos, algo importante se perde.

O sofrimento humano deixa de ser compreendido em toda a sua complexidade e passa a ser tratado apenas como um conjunto de sintomas a serem controlados.

Imagine alguém que sofre com ansiedade intensa. A medicação pode reduzir os sintomas físicos e trazer alívio imediato. Isso é valioso. 

Mas o que acontece com os pensamentos que alimentam essa ansiedade? Com os padrões de comportamento que a mantêm? Com as experiências de vida que ajudaram a construir essa forma de reagir ao mundo?

Essas perguntas não desaparecem apenas porque o sintoma diminuiu. É justamente nesse ponto que a psicoterapia entra.

Quem cuida 

Na prática clínica existe um princípio simples, quase óbvio: cada profissional cuida daquilo que pertence à sua área de formação.

O psiquiatra avalia a necessidade de medicação, acompanha os efeitos do tratamento farmacológico e monitora aspectos biológicos da saúde mental. O psicólogo trabalha com a dimensão subjetiva do sofrimento humano.

Se um paciente não está adequado ao meu tipo de abordagem terapêutica, por exemplo, a responsabilidade de encaminhá-lo para outro profissional é minha. Faz parte da ética da psicologia reconhecer quando outro tipo de trabalho pode ser mais adequado.

Mas essa decisão pertence ao campo da psicologia, assim como a decisão sobre medicação pertence ao campo da medicina. Quando essas fronteiras são respeitadas, algo muito poderoso acontece: o cuidado se torna integrado.

O que realmente ajuda o paciente

Diversos estudos científicos mostram que a combinação entre acompanhamento psiquiátrico e psicoterapia tende a produzir resultados mais consistentes no tratamento de muitos transtornos mentais.

Não se trata de escolher entre uma coisa ou outra. Trata-se de compreender que o sofrimento humano é complexo demais para ser reduzido a um único tipo de intervenção.

O paciente que recebe cuidado integrado não apenas melhora dos sintomas. Ele aprende a compreender o que sente, desenvolve recursos internos e passa a lidar com a própria vida com mais autonomia.

No fim das contas, é isso que todos nós buscamos na saúde mental: não apenas silenciar a dor, mas entender o que ela quer dizer.

Uma conversa necessária

Este texto não nasce de rivalidade entre áreas da saúde. Nasce de algo muito mais simples: responsabilidade com o cuidado que oferecemos aos pacientes.

Psiquiatria e psicologia não são concorrentes, mas se complementam.

Quando cada profissional respeita o campo de atuação do outro e existe comunicação entre as áreas, o tratamento ganha profundidade e o paciente se beneficia muito mais.

Talvez essa conversa seja desconfortável para alguns. Mas conversas importantes costumam ser assim mesmo, não é? Todos nós estamos aqui pelo mesmo motivo: ajudar pessoas que chegam até nós em momentos de vulnerabilidade.

E esse cuidado merece ser construído com respeito, colaboração e consciência sobre o papel de cada profissão.

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