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Quando a menopausa me ensina mais sobre sororidade do que minhas próprias amigas.

O machismo que carregamos dentro de nós é um convite para sermos aldeãs.

Desde que me descobri na menopausa, no início de 2025, tenho tido ainda mais certeza de que a vida é curta demais para perdermos tempo com bobagens, com situações que não fazem sentido com quem somos, muito menos sermos cúmplices de valores e crenças que desmerecem o nosso SER.

Tenho repensado em como lido com o mundo à minha volta, com as coisas que me acontecem, no meu modo de vida familiar, mas, principalmente, como me relaciono com minhas amigas e as outras mulheres da minha vida.

Neste final de semana, assistindo “Meu Ayrton” da HBO e finalizando a série “Simplesmente Alicia” da Netflix, fiquei ainda mais pensativa…

Essa inquietação me conectou profundamente com um texto que li recentemente, “Na minha era aldeã” de Fernanda Marques da Redação Opinião CE, onde a autora fala sobre a decisão consciente de se reaproximar das amigas, de investir em uma “aldeia” de mulheres como estrutura de sustentação. E é exatamente isso. A vida adulta, com suas demandas incessantes, nos empurra para ilhas, mas um instinto ancestral sussurra que precisamos umas das outras. Nossas avós sabiam disso, e nós estamos reaprendendo.

Contudo, essa aldeia que tanto precisamos construir é constantemente ameaçada, e não apenas pela falta de tempo. Ela é minada por um inimigo interno, sutil e poderoso: o machismo e a misoginia que nós, mulheres, internalizamos e, por vezes, perpetuamos. É mais fácil apontar o dedo para o sexismo que vem de fora, mas o verdadeiro desafio é reconhecer como ele se manifesta dentro de nós, envenenando nosso olhar sobre umas as outras.

Série: Simplismente Alicia

A série “Simplesmente Alicia”, da Netflix, é um retrato disso. A protagonista, Alicia, vivida por Verónica Orozco, é submetida a um julgamento público implacável por suas escolhas.

A sociedade, incluindo outras mulheres, a condena com uma ferocidade seletiva. Mas onde está a mesma fúria para Martin, marido da sua amiga, vivido por Andrés Toro, que numa história paralela, também trai sua esposa e será pai no relacionamento extraconjugal? Ou para Alejo, o político corrupto vivido por Julián Román que, do alto de sua própria imoralidade, se sente no direito de sentenciar Alicia? Mais do que isso, ele usa a situação de Alicia para tirar proveito a seu favor.

O peso do julgamento é desproporcionalmente maior sobre ela porque, como sociedade, ainda somos mais duros com as mulheres que desafiam as expectativas.

Documentário: Meu Ayrton

Esse mesmo padrão cruel se repete em histórias reais. Ao assistir ao documentário “Meu Ayrton”, é impossível não se comover com o que Adriane Galisteu viveu. Uma menina de apenas 20 anos, apaixonada, que foi transformada em vilã pela opinião pública após a morte de seu príncipe encantado. Enquanto a família Senna retirou-a de cena, ignorando sua pouca idade, sua dor e o seu amor. Foi real!

As pessoas foram cruéis, dissecando sua dor e seu comportamento com uma lupa misógina, como se ela não tivesse o direito de viver seu luto e a imaturidade natural do amor de juventude. Julgaram-na sem qualquer empatia, sem a compaixão que deveria ser a base da nossa conexão humana. Eu era uma menina, tinha 16 anos quando Ayrton Senna sofreu o acidente fatal. Lembro-me de escutar de outras mulheres, inclusive mulheres adultas, que Adriane era vulgar, interesseira, aproveitadora e tantos outros adjetivos, mas o que me chamava a atenção é que nenhuma dessas mulheres a conhecia de verdade.

Ou seja, julgavam-na a partir de suas fantasias pessoais, dos seus medos impostos e das privações que lhes eram acometidas. O irônico é que, numa época em que cultivavam em nós, meninas, a crença do príncipe encantado, a que acreditou e viveu seu conto de fadas foi severamente julgada por ter tido a oportunidade de viver o seu romance.

Ambos os casos, o ficcional e o real, nos mostram o mesmo espelho: falhamos umas com as outras. Falhamos quando adotamos a narrativa machista e misógina que nos coloca como rivais ou que nos mede por uma régua moral que não se aplica aos homens. Como diz o texto, “ser uma aldeã é um ato de resistência: é escolher priorizar mulheres em uma sociedade que dificilmente nos prioriza”.

Essa resistência começa em nós. Começa quando escolhemos a empatia em vez do julgamento. Quando defendemos a Alicia em vez de nos juntarmos ao coro dos justiceiros. Quando olhamos para a jovem Adriane e vemos a menina que ela era, em vez da caricatura que criaram dela. Começa quando, na nossa própria vida, decidimos ser a amiga que apoia, que acolhe, que constrói a aldeia.

A menopausa está sendo para mim um lembrete sobre a finitude da vida e a urgência em tomarmos consciência do quanto vivemos à sombra de algo que não somos, mas que construíram sobre nós. Somos humanos e, enquanto humanos, erramos e acertamos, independentemente de sermos homens ou mulheres. Mas o fato é: homens podem errar, mulheres não.

E, por conta dessa máxima, somos queimadas vivas até hoje em fogueiras construídas por homens, mas alimentadas por mulheres, por erros que os homens cometem, mas que não nos permitem cometer.

Este texto é um chamado para abandonarmos as armas que apontamos umas para as outras e, em vez disso, darmos as mãos. A vida é curta demais para não sermos a rede de apoio, o suporte, a aldeia que todas nós, desesperadamente, precisamos. Que possamos, então, decidir ser aldeãs, hoje e sempre.

Volto a dizer, apoiar não significa concordar com erros ou ignorar o que não é bom. Pelo contrário, é ser verdadeiro com o que pensamos, sentimos e respeitamos, mas, principalmente, é ser a mão de que a outra precisa para resolver suas situações e poder viver a vida com saúde, prosperidade e bem-estar que todas nós merecemos.

Que esta reflexão sirva como um convite. Um convite para olharmos para dentro e para os lados, com mais gentileza e menos julgamento. A construção da nossa aldeia é um trabalho diário, feito de pequenas e grandes decisões.
E agora, eu adoraria ouvir você.


Como a sororidade se manifestou ou se manifesta na sua vida? Ou, em um momento de honestidade, você já se reconheceu reproduzindo o machismo ou a misoginia que tanto combatemos?

Compartilhe sua história. Vamos juntas transformar nossas experiências em força e aprendizado.

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